Mostrar mensagens com a etiqueta Texto e Música. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Texto e Música. Mostrar todas as mensagens

Um Vinho Tinto de Além Tejo


   Encomendámos as pizzas.
   Quando ela me ofereceu chá, percebi que havia um enorme leque de opções à escolha, acabámos por beber um que ela sugeriu, que se apelidava Cocktail Exotique... assim deduzi que uma das componentes daquele espaço era a de uma casa de chá. Bem, de chás e infusões. Elisa explicou que vulgarmente chamamos chá a tudo, mas que maioria do que bebemos são infusões. Designadamente toda a panóplia de mesinhas passadas de geração em geração, de mães para filhas, para tratar os múltiplos mal-estares do corpo. Por vezes até da alma.
   Não muito longe dali havia, bem integrada em toda a decoração, uma garrafeira. Por detrás das prateleiras onde estavam as garrafas havia uma minuciosa iluminação. Havia garrafas ao alto, vinhos que por um qualquer critério tinham maior destaque. Outras havia, deitadas, mas de rótulos voltados para o olhar dos possíveis clientes. Logo para além da vertente casa de chá, era também de se concluir que ali também se podiam beber bons vinhos. Mais do que os beber, o ambiente indicava que era para serem saboreados em boa companhia, como tempero de uma boa conversa.
   Obviamente, como espaço público que era, aquele espaço não iria ter clientela selecionada, mas pelo ambiente, por aquilo que disponibilizava e pelos preços que certamente iria praticar, essa mesma clientela iria selecionar-se por si mesma. O espaço tinha glamour, discreto mas tinha, como Elisa...
   Havia uma aura intelectual por ali. Havia livros também. Expostos quase como se fossem obras de arte. Mas não tendo Elisa dado qualquer explicação, não pude concluir se teria uma vertente de livraria ou de biblioteca. Ou eventualmente até teria ambas. Mas, ao ter curiosidade, ao querer perguntar, recordava as palavras da anfitriã, qualquer coisa como deixar ao livre arbítrio dos clientes o tirar conclusões e só intervir se eles estivessem incorretos.
   – Assim que chegarem as pizzas, vamos buscar o vinho, não convém que seja já... para estar à temperatura ideal quando o bebermos. – informou Elisa e eu anuí, com um informal gesto de cabeça. Fiquei a pensar naquele pormenor da temperatura do vinho e batia certo muita coisa que estava a pensar sobre o enquadramento daquele lugar.
   E ela então perguntou:
   – Diga-me Santiago, imagina-se cliente desta sala de estar?
   – Chá, vinho, livros... – disse colocando logo de seguida um ar pensativo – Sim, com certeza que sim... – conclui.
   – Bem, não lhe posso perdoar não referir a boa companhia, vou tomar isso como um mero lapso. – disse ela sorrindo.
   – Sem esquecer a magnífica companhia. – disse como se não tivesse parado de refletir.
   – Desta safou-se. – disse ela quase rindo.
   – Ufa! – exclamei como que aliviado.
   – Vou colocar música. Com licença... – disse ela.
   Quando ela disse música, pensei que o meu resumo de há pouco ficava completo. Chá, Vinho, Livros... Não esquecer a boa companhia... e a cereja no topo do bolo: música.
   – Parece-me bem. – concordei, mas com a sensação de não saber, se essa responsabilidade eu tivesse, de escolher uma música adequada para aquele lugar, para aquela ocasião e de repente senti que aquele era um espaço onde também se podia aprender com as pessoas que por ali se poderia vir a encontrar.
   Elisa que já se havia levantado, virou-se ligeiramente para trás e disse:
   – Sabe, vou apresentar-lhe um músico de quem gosto muito.
   Pensei para comigo, ela revela-se aos poucos, só preciso estar bem atento.
   Elisa foi ao bar e a partir daí nasceu o som envolvente de um piano. Logo pensei naquilo que me havia chegado aos ouvidos, lá no Banco, sobre a música que se podia ouvir vinda do apartamento de Elisa.
   Ela voltou e sentou-se de novo junto de mim. Aquela mulher fascinava em tudo, até no sentar gracioso, quase sensual, era impossível não reparar.
   – Gosto muito da música produzida por este instrumento, são um refúgio seguro para mim. – disse num tom sério, de quase confissão, e perante a informação prestada senti que a devia guardar. Jamais esquecer.
   Eu escutei, não era entendido, mas não podia deixar de concordar que a melodia que se ouvia e a superior qualidade da aparelhagem sonora, criou um ambiente muito acolhedor.
   Elisa ficou como que mais calma. Como que possuída pela própria música.
   – Você gosta mesmo desta música. – ousei opinar.
   – Não só gosto como preciso dela. – confessou.
   – Porquê? – perguntei curioso. Desta vez sem temer uma das respostas típicas de Elisa.
   – Sou um pouco impulsiva, digo muitas vezes o que me vem primeiramente ao pensamento, sem nada filtrar ou autocensurar... – fez uma pequena pausa – E isso nem sempre é a melhor coisa a fazer... e se hoje estou aqui é porque o fui...
   Não disse nada, fiquei a pensar que ela se referia a mim e que de alguma forma, estava arrependida.
   Ela olhou, sentido o que eu pensava e disse:
   – Não, Santiago, não me refiro a si. – sossegou-me.
   Olhei-a bem, naqueles olhos que já me olhavam.
   – Pode contar comigo, Elisa. – disse disponibilizando a partir daquele instante a minha amizade. Falei, não dando um passo em frente, mas vários. Não senti medo da reação dela, ela tinha aberto uma brecha nas suas muralhas e eu qual esguio soldado logo entrei para sabotar o castelo.
   Pensava não só no que ela havia dito, mas vendo-a sobretudo como uma mulher algo solitária. Alguém que rompera, sei lá, como uma fase de vida. Era este o meu juízo naquele instante, era esta a opinião de algumas pessoas do bairro.
   Elisa olhava-me como alguém sem defesa procurando-a.
   – Eu sei, Santiago, eu senti e por isso o convidei. – confessou.
   Sorri e apeteceu-me segurar-lhe as mãos... E se depressa o pensei, mas depressa ainda não o fiz. Ela estava calma e relaxada, mas há um momento em que não convém abusar da sorte. Como alguém que nunca tendo ganho ao jogo decide parar de jogar para com alguma coisa ficar.
   Conversámos mais um pouco. Elisa falou-me do pianista que escutávamos, chamava-se Brain Crain, notava-se que era muito entendida na matéria. Falava e divulgava o seu conhecimento de uma forma... sei lá... quase como se de uma professora se tratasse, só faltou mesmo perguntar se eu tinha dúvidas.
   Nunca fui propriamente entusiasta de música de um piano, mas confesso que aquele som, naquele espaço, fez um inesperado sentido. Eu estava realmente a gostar muito de ali estar.
   Uma grande variedade de chás, bons vinhos para saborear, livros que com suas narrativas nos fazem voar, música para nos embalar e sossegar o espírito. Era esta a minha síntese do lugar, o meu livre arbítrio, aquele que Elisa iria ou não aprovar. Aprovaria ao não me corrigir.
   A fórmula base daquele espaço começava a agradar-me muito. O ambiente. Seria um espaço público mas íntimo, intimista.
   E eu tinha ainda uma vantagem a acrescentar, a magnífica companhia de Elisa.
   – Não tenho talheres nem pratos. – informou ela – Temos que comer as pizzas com as mãos. Espero que não se importe, Santiago...
   – Claro que não... – disse sorrindo, para assim sossegar a aparente apreensão de Elisa.
   – Até é giro. – disse ela – Já não faço isso há tanto tempo. – confessou manifestando um inesperado saudosismo.
   Havia nuances em Elisa, uma vontade de falar de si, de ir mais além, mas também, e quase ao mesmo tempo, de não ir. Era como uma guerra interior. Ela começava a fazer-me sentir muito curioso, um desejo de a conhecer mais e melhor havia-me tomado por completo naquele final de tarde, princípio de noite.
   Ouviu-se uma campainha. Elisa pediu licença e levantou-se.
   – Santiago, fique ai... – ordenou ela.
   – Eu... – comecei por dizer, mas o olhar dela como que me calou a boca.
   Elisa pegou na sua bolsa e foi à porta.
   Voltou com as pizzas e ainda antes de as colocar sobre a mesa disse:
   – Da próxima vez comemos lá em casa, está a começar a ficar frio e estava-se muito bem junto à lareira. – opinou ela.
   Eu limitei-me a ouvir. Nada disse. Nada havia para dizer. Tanto pelo efeito surpresa como pela quase impossibilidade de a contrariar.
   Elisa parecia que decidia tudo. Sentia-me como que escolhido. Era isso que sentia e isso acarretava como que aceitar as suas decisões, as suas espontâneas decisões.
   Ainda mal nos havíamos conhecido, já ela falava em próxima vez, em me levar a sua casa. Não parecendo importar para ela toda a conjetura envolvente. Ou a vida que eu tinha antes dela aparecer.
   – Santiago, vá abrindo as caixas... – disse ela – Vou buscar o vinho que escolhi para nós a pensar em si, para lhe proporcionar a degustação de um néctar que estou certa que nunca provou...
   Pelo requinte do lugar, ainda que apenas em pensamento, concordei com ela.
   Voltou escassos momentos depois com a garrafa já aberta e com dois copos.
   – Santiago, queira ter a bondade e a gentileza de servir a senhora. – disse Elisa sorridente. Passou-me a garrafa para as mãos e pousou os copos em cima da mesa. Sentou-se.
   – Com todo o gosto... – disse igualmente sorrindo.
   – Ainda bem que não disse com todo o prazer, pois prazer é outra coisa... – disse ela num tom enigmático, quase provocador.
   Fiquei, naturalmente, sem resposta e ela parecia, ela sim, ter prazer em me deixar completamente desarmado. Enchi primeiro o copo dela e depois o meu.
   – Brindemos. – disse ela.
   – Sim, brindemos a este lugar e que o mesmo se torne naquilo que você idealizou para ele. – propus eu.
   – Amén. – disse Elisa e os copos tocaram-se produzindo um som que quase se encaixou perfeitamente na música do piano que podíamos escutar.
   Comemos as pizzas, havíamos encomendado duas diferentes, mas acabámos por dividi-las entre nós. Elisa falou do vinho. Percebi que sabia do que falava.
   Não havia dúvida, o vinho era de facto magnífico. O meu falecido pai diria que era uma bela pomada, mas estou certo que ele jamais degustara algo assim, não era um vinho acessível a todas as bolsas, por certo.
   – Sabe, Santiago, estou a adorar tê-lo aqui... comigo... – confessou Elisa.
   – Eu também, sinto-me um privilegiado. – disse.
   – Hum! – sonorizou ela pensativa.
   Eu olhei-a, intrigado, esperando uma surpresa qualquer.
   – Vou mostrar-lhe a minha casa. – comunicou Elisa.
   – Quando? – perguntei pensando que ela estava a programar isso para uma outra ocasião.
   – Agora! – exclamou ela.
   Mais uma vez eu nada disse. Estava decidido e isento da minha aprovação. Sorri.
   – Hum!... – ficou de novo pensativa e eu esperando mais alguma surpresa – Eu sou a dona, não sou? – perguntou olhando à sua volta. Uma pergunta retórica a que eu decidi responder.
   – Presumo que sim. – respondi bebendo o resto do meu vinho. A garrafa estava vazia, assim como o copo de Elisa.
   – Vou buscar mais uma garrafa de vinho e levar para bebermos lá em casa. – comunicou.
   Elisa levantou-se. Não posso afirmar que estava embriagada, mas aquele vinho tinto havia deixado marcas nela... e em mim também...
   Arrumámos rapidamente tudo, como que eliminando as provas da nossa presença ali. Ajudei-a a trancar tudo, ela ligou o alarme e saímos pelas traseiras.
   – Vamos a pé, não é muito longe e como nós já bebemos um pouco, vai fazer-nos bem um pouco de ar fresco. – disse Elisa após fechar a porta das traseiras. Na sua bolsa seguia a segunda garrafa de vinho.
   – Concordo. – disse sorrindo e lá fomos.
   Ela pegou-me no braço... bem, como explicar?
   Não há imagem melhor para descrever do que a do gesto de uma noiva puxando para si, e só para si, o homem escolhido. O seu noivo.


   Notas Finais
   Agradeço mais uma vez a Ivone Moreira a paciência que tem para corrigir o que escrevo.


   Texto(s) Relacionado(s)
   - Apenas Elisa,
      publicado a 16 de Dezembro de 2012.
   - Chá com Elisa,
      publicado a 30 de Dezembro de 2012.




Blog optimizado para Mozilla Firefox   

Apenas Elisa


   – A senhora não se importa de assinar aqui e ali, se faz favor... – disse eu, desenhando a lápis uma cruz onde ela deveria assinar.
   – Elisa, trata-me apenas por Elisa... – disse ela num tom quase imperativo, mas tão sereno como a doçura da sua voz.
   – Como? – perguntei, para me certificar que ouvira bem.
   – Apenas Elisa, trata-me apenas por Elisa. – disse sorrindo, olhando para mim. Senti uma inesperada vontade de ficar assim para sempre. Parar aquele momento… aquele não conseguir parar de a olhar.
   E esta espécie de feitiço termina, esta sensação de ser controlado. Ela baixa o olhar, para os papéis, e eu sinto que ela, a cliente, me chama a atenção para que é meu dever concentrar-me no meu trabalho.
   – Aqui e ali, se faz favor... Elisa... – repeti, fazendo o meu trabalho, acatando o desejo da cliente.


   Sempre que ela passava para lá das amplas janelas que eram fachada do meu local de trabalho, um qualquer colega dizia: lá vai ela... E então era vê-la passar sempre com a mesma leveza no andar, parecendo não pousar no chão, parecendo sim flutuar. Vestia sempre sob o mote da simplicidade mas sem nunca deixar uma elegância sublime. Parecia uma brisa, e nessa tão própria brisa voavam, em total harmonia, os seus cabelos loiros, leves, soltos e brilhantes.
   Aquele bairro era quase uma localidade de província na cidade. As pessoas conheciam-se quase todas umas às outras, saudavam-se na rua. Bisbilhotava-se no pequeno supermercado a vida alheia ou na mercearia da província... Ela era a notícia do dia, dos últimos dias, de há uma semana a esta parte, talvez...
   Mas digamos que tudo começara ainda antes de ela chegar e se instalar no bairro.
   Havia um café no final da rua, muito agradável, onde toda a gente se falava e saudava como se de uma imensa família se tratasse, onde os clientes quase não precisavam dizer o que queriam, pois os empregados já sabiam de cor os hábitos e gostos das gentes locais.
   Mas um dia, inesperadamente, sem nada até então o fazer prever, chegou a notícia que iria fechar... Nunca ninguém se apercebera da possibilidade desse cenário, nem nós no Banco, qual confessionário não declarado da situação económica de cada um lá do bairro, o imaginara... mas o certo é que fechou e de imediato lá apareceu o anúncio que informava que o estabelecimento se trespassava, alugava ou vendia. Mas sabíamos que se privilegiava a venda em detrimento das outras duas opções.
   Correu a notícia não confirmada que o filho do dono se havia endividado, levando o pai a vender aquele bem da família para lhe pagar as dividas e assim limpar o seu nome. Nada confirmado, mas o povo, achando-se soberano, tomou esse cenário como verdade absoluta.
   Bem, mas se inesperado foi o fecho, mais surpreendente foi saber-se da venda uma ou duas semanas depois de ter sido colocado o anúncio. Por dois motivos era justificada essa surpresa. Primeiro, a péssima situação económica do país e a crise no mercado imobiliário. Segundo, sabia-se que não era um negócio para se ficar rico. Exigia muito trabalho, dedicação e o retorno nem sempre era equiparado.
   Primeiro os vidros foram forrados com papel de jornal e viu-se sair de lá todo o equipamento necessário para o funcionamento daquele estabelecimento tal como sempre o havíamos conhecido. Não muito depois esses vidros foram substituídos por outros, daqueles espelhados, que durante o dia não permite ver o que se passa no interior.
   Uns dias depois ela apareceu... e sendo o bairro a dita localidade de província na cidade, naturalmente ela passou a ser notícia e a curiosidade instalou-se entre todos. Quem era? O que estava a ser feito naquele espaço? Naturalmente ela não conhecia ali ninguém, logo ninguém sabia quem era nem quais os seus planos. Toda a gente andava sedenta de novidades.
   Depois soube-se que comprara um apartamento ali perto. Sim, comprara, não alugara, logo se podia concluir que vinha para ficar. Dizia-se que havia pago a pronto.
   Um dia ela olhou pela ampla janela, no outro talvez o letreiro e ao terceiro dia, qual aparição, ela entrou... assim que o fez eu não consegui parar de a olhar, não havia ligado muito às notícias sobre a nova cidadã do bairro, eu vinha de outras paragens, apenas ali vinha religiosamente todos os dias da semana para trabalhar na única agência bancária que ali havia, mas naquele instante percebi porque homens e mulheres não paravam de falar nela. Por eles certamente desejada. Por elas naturalmente invejada.
   Talvez ela se tenha apercebido do meu olhar, talvez sem o querer eu a tenha chamado ou, por mero acaso, eu não tinha cliente naquele instante e ela a mim se dirigiu.
   Naquele momento em que ela parou bem na minha frente, em que sei ter sido invejado por todos os meus colegas, fiquei sem palavras. Sem lembrar as palavras da mera boa educação, da mera rotina laboral, rotina essa de já vários anos naquela função... E então ela disse:
   – Bom dia, meu nome é Elisa... – disse, enquanto no seu rosto havia um sorriso natural, e estendeu-me a mão.
   Levantei-me da minha cadeira e aceitei aquele cumprimento.
   – Sente-se... – disse tentando não parecer nervoso e concentrando-me nas rotinas da função.
   – Obrigado! Com licença... – disse ela educadamente.
   Sentou-se, ajeitou o cabelo que com o sentar havia saído do arranjo que ela queria para ele.
   – Em que lhe posso ser útil? – perguntei depois de me certificar que ela estava devidamente instalada.
   – Gostaria de abrir uma conta no seu Banco... – começou por dizer e ao mesmo tempo começou a procurar algo na bolsa que trazia consigo.
   A minha concentração naquele instante, para que nada saísse errado, era tanta que pensei até na possibilidade de um assalto, mas era um perfeito disparate.
   Ela demorava e enquanto procurava, disse-lhe que documentos precisava e o montante mínimo para abertura de conta.
   – Encontrei! – exclamou ela finalmente.
   Sorri perante o alívio por ela demonstrado.
   – Já vi que isto chega para abrir uma conta no seu Banco. – disse ela sorrindo, dando-me um cheque.
   Bem, o cheque era de um montante apreciável. Mais do que eu iria ganhar por ali trabalhar no que restava de um ano que mal havia começado.
   – Óbvio que sim... – foi tudo o que consegui dizer.
   Tirei de uma gaveta os formulários de abertura de conta e ela facultou-me os documentos que anteriormente lhe disse que precisava.
   Esta foi a primeira de muitas outras vezes que ela haveria de voltar.
   Numa dessas vezes, ela faz questão que eu a passasse a tratar apenas por Elisa, o que naturalmente fiz a partir de então.
   Sempre que eu que não estava no Banco e por acaso Elisa aparecia, perguntava logo por mim, alguém lhe respondia quando eu estaria de volta e ela voltava mais tarde. Até hoje só eu a atendi. Os meus colegas, com alguma inveja, dizem que ela está interessada em mim e que finalmente alguém me vai desencalhar. Confesso não gostar muito de tais comentários, mas a verdade é apenas uma: ela tem o capricho, penso que lhe posso chamar assim, de ser atendida apenas por mim. Apenas isso. Nada mais quero acreditar que seja.

   Chegou também aos meus ouvidos que ela tocava piano, ou que, pelo menos, era apreciadora da música deste instrumento. Um dia, já em casa, por mera curiosidade fiz no youtube uma pesquisa juntando duas palavras: piano elisa... Não esperava encontrar nada, mas acabei por achar um tema do compositor alemão Ludwig van Beethoven, justamente chamado Para Elisa, e pensei que também na vida deste houve a dada altura uma Elisa. Voltei a fazer mais uma pesquisa e afinal crê-se que a Elisa de Beethoven era na realidade Therese Malfatti, também conotada como sua musa.
   Bem, a minha cliente Elisa não era musa. Mas era impossível ficar-lhe indiferente. Era impossível. Eu desejava a sua vinda.
   Todas as manhãs durante quase um mês notava-se grande azáfama naquele antigo café, mas sendo tudo feito pelas traseiras, o estabelecimento tinha ainda uma cave também, era impossível saber ao certo o que se estava ali a fazer. Quem lá se via a trabalhar era de poucas falas e eram à semelhança de Elisa desconhecidos das pessoas do bairro.
   Apesar do secretismo, Elisa, com a sua postura, ganhara o respeito das pessoas. Sendo vistosa, não era pela sua postura, de dar nas vistas, era discreta. Quem já havia convivido com ela, dizia que era de uma simpatia extrema, de uma educação intocável. Naturalmente eu concordava, tendo em conta a minha interação com ela. A sua postura, próxima nuns aspetos, distante noutros, fazia as pessoas não lhe fazerem muitas perguntas. Elisa parecia querer integrar-se sem se expor em demasia. E verdade seja dita, estava a consegui-lo.
   Há realidades que são como uma forte corrente, por mais que se tente, lute, para não ir nelas, lá vamos... Deixava sempre meu carro no mesmo parque, quase sempre o mesmo lugar, somos feitos de hábitos e rotinas, e passar pelo antigo café era inevitável para chegar ao meu local de trabalho. Portanto olhar, tentar descortinar, o que se passava para lá daqueles vidros era quase instinto. Mas nunca nada consegui ver, apenas se escutava um ou outro som próprio de uma lugar em obras ou remodelação.
   Um dia, quase dois meses após o fechar inesperado do café, Elisa veio ao Banco.
   Havia alguém comigo, havia colegas livres, disponíveis, para a atender, mas ninguém a interpelou no sentido de lhe dizer o que quer seja, pois sabiam que ela fazia questão de ser por mim atendida. Elisa esperou a sua vez.
   Após a atender e quando já me preparava para despedir dela:
   – Está quase... – disse ela com um sorriso, em voz baixa, como se me estivesse a contar um segredo, e no fundo era, ela tinha noção disso de certeza.
   – Como? – perguntei sem perceber o contexto.
   – Está quase... – repetiu ela no mesmo tom e piscando-me o olho.
   Ela levantou-se, sem deixar aquele sorriso cúmplice, despediu-se de mim com o habitual aperto de mão e foi embora.
   Dois dias depois, pouco antes da minha hora de sair do Banco, toca o telefone. Desejei não ser um daqueles inoportunos imbróglios de última hora, não tinha nada de urgente para fazer quando saísse, mas queria sair a horas.
   Era Elisa. Estranhei, nunca ela havia ligado.
   – Algum problema? – perguntei preocupado.
   – Problemas terá você se não aceitar o convite que lhe tenho para fazer... – disse ela num tom tão ameaçador quanto mal encenada era a ameaça, não disfarçado a sua habitual simpatia e boa disposição.
   – E qual é o convite? Não quero ter problemas. – disse entrando naquele jogo de faz de conta.
   – Quando sair venha ter comigo... – começou ela por dizer.
   – Isso parece mais uma ordem que um convite. – interrompi.
   – É isso mesmo: uma ordem... – concordou ela – A porta estará apenas ao trinco, entre o mais discretamente possível. – finalizou ela.
   – Com certeza, assim será... – aceitei.
   – Ah! Gosta de vinho? – perguntou.
   – Sim, gosto, alentejano tinto... – disse espontaneamente.
   – Estou à sua espera. – finalizou ela.
   E desligou o telefone.
   Fiquei nervoso, confesso, verifiquei se alguém havia escutado aquela conversa, mas felizmente, e aparentemente, não.
   Passada meia hora sai e ao passar pelo café...
   Paro. Acabo de parar, não há gente a passar, vou abrir a porta e entrar...


   Notas Finais
   Agradeço mais uma vez a Ivone Moreira a paciência que tem para corrigir o que escrevo.




Blog optimizado para Mozilla Firefox   

A Razão de Partir


   Texto escrito por Maria


   A razão de partir… o medo de sentir…

   Olho a minha volta e vejo vidas tão diferentes… a forma como crescemos, como olhamos o mundo… como pensamos e como sentimos. Um sentimento que vai desde a forma como olhamos para nós próprios ou como nos colocamos face aos outros (ou face ao outro)…

   Há situações na vida que por vezes nos retiram a nossa energia, roubam a forma como acreditamos no mundo e nas pessoas, os nossos sonhos, e… a partir desse instante… é como se tudo se transformasse, como se passássemos a ver o mundo segundo a lupa do receio e do que pode sempre correr mal… Conheço uma frase que diz «Os sentimentos devem ser livres. Não se deve tentar julgar o amor futuro pelo sofrimento passado» (Paulo Coelho). Mas será que a partir de determinados acontecimentos (aqueles que transformam a nossa vida num momento) … será que conseguimos que os nossos sentimentos permaneçam livres… livres sem o receio do que possa acontecer de menos positivo… Será a nossa nova entrega realmente livre para deixar entrar tudo o que temos direito, ou que acreditamos que temos direito!!! Esta frase “típica” de “tudo o que temos direito” acaba por ser ela curiosa… Tudo o que temos de direito… mas não acaba este próprio termo por nos levar a querer essa liberdade de sentimentos… porque só podemos ter direito quando nos expomos às situações, quando permitimos que aconteça… Então porque fugimos???

   A razão de partir pelo medo de sentir… quantas vezes acontece?? Quantas vezes se foge quando percebemos que o sentimento pode ser mais forte… aí o receio apodera-se de nós, pelo inesperado que pode surgir o momento seguinte… E se??? E é esta a pergunta que passa pelo pensamento… e se sou só eu que estou nesta sintonia… Qual sintonia??? (se sou só eu que estou lá.) E se sigo este caminho… já correu mal num outro momento… e agora?? Vou fugir… é um primeiro pensamento… E quantas pessoas fogem, pegam nas “malas” e saem logo na primeira estação onde o comboio pára, numa estação onde já estiveram antes e onde se torna o seu porto seguro…

   Tantas desculpas são dadas nesses momentos… por vezes já estamos tão mecanizados que nem nos apercebemos dessas mesmas desculpas, desses comportamentos que já são tão naturais e que nos afastam do que de novo pode acontecer nas nossas vidas… Ai esse receio…

   Por outro lado, em algumas situações, é a entrega imediata e absoluta em determinado momento… quando alguém “nos” dá a mão e nos olha de uma forma absoluta… e quase nos dizem que somos a vida… e nos levam a acreditar nesses sentimentos… e afinal… na “hora” seguinte já passou… “afinal estava enganado”… como é que se passa de um sentimento a outro assim, num piscar de olhos… mas as pessoas andam doidas??

   Neste momento sinto vontade de partir para não sentir o medo de que tudo afinal seja um sonho… um sonho que não se possa transformar numa realidade concreta… Mas será que há uma realidade concreta ao nível dos sentimentos… na verdade não sei esta resposta!!! Só sei que estou a meio caminho entre o medo de ficar e o sentir que tenho de partir… e assim vou calando o penso… calando e escondendo o que sinto e guardo para mim tudo o que poderia dar…

   A verdade é que adoro quando me abraças… adoro o teu cheiro…. o teu sorriso e o teu olhar… gosto da forma como me sinto quando estou contigo… a forma como me sinto quando penso em ti, mesmo que não estejas ao meu lado… Mas só me mostras que não é uma estação para ficar… o comboio segue e dizes-me, mesmo com o teu silêncio, que tenho de apanhar esse comboio e seguir… seguir a minha viagem sem que me acompenhes…




     O vídeo que pode ver em baixo é uma curta-metragem chamado Cupidity (ou Cupido, em português).

     A história é sobre uma empregada de mesa apaixonada por um cliente, mas que ele nunca reparou nela. Ela canta no restaurante onde trabalha e todos a aplaudem... menos o cliente por quem ela está interessada.

     Até que ela percebe o real motivo do desinteresse e recebe a ajuda de um Cupido. Veja por si mesmo: clique no play e emocione-se.